Complicado quando a gente precisa falar mas não sabe pra quem contar. Quando a gente precisa só de um peito pra se ter o apoio, algumas palavrinhas clichês de “vai ficar tudo bem, eu tô aqui”. Mais complicado ainda quando a gente não encontra essa pessoa. Que tem uma opinião neutra, sabe? Que não vai te dizer se você está certa ou errada de sentir aquilo. Que só vai te dizer que continua ali, pra qualquer coisa. Colo quente sempre foi melhor do que uma cama quente pra se chorar, vozes acalentadas sempre foram melhores que travesseiros inertes. Sempre preferi pessoas. Mas talvez elas não me prefiram.
BM
Me pergunto todos os dias o motivo de ainda acreditarmos tanto em palavras toscas que nos são ditas ao pé da orelha. Como, por exemplo, aquele clichê “eu te amo”. É só mais um blefe, e quando menos se espera, essas mesmas palavras, com até mesmo a mesma feição, serão ditas a um outro alguém que não você. O caso é, a gente sempre cai na mesma historinha de que somos únicos na vida de alguém. Mas um dia, se aprende que ninguém no mundo é insubstituível.
mais um, como outro
Paulo Coelho quando disse que ausências causam esquecimentos, nunca tinha ouvido falar da gente.
🎀
Nunca fui a boa filha, ou a princesa da família, e muito menos aquela que leva o namorado nos jantares casuais de domingo. Aliás, sempre fui aquela que odiava rosa com todas as forças, e que queria ser a bruxa má do oeste na peça do colégio. Não soube crescer acompanhando o andar pobre e incerto da aspirantes a Cinderela. Sabe aquela que brincava de carrinho com os meninos? Ou então que se sujava na lama rolando com o cachorro? Essa era eu, na verdade, ainda sou. Não assumo esterótipos baratos de ser o sexo frágil ou não ter a força suficiente para impactar o redor. Sempre gostei de preto, por soar poeticamente forte, aliás, uma vez que este não se mistura com as cores ao redor, o que, particularmente, é uma definição escassa, já que ao fazer aquela mistureba de tintas da paleta, todas elas se transformam em preto. Digamos então que em meio as cores, eu sou aquele ponto preto (piadas à parte). Aquele que não adquire a cor dos outros, o que metaforicamente, se assemelha em muitos aspectos a mim. No contexto geral da coisa, admiro-me ser feito o preto do carvão, aquele que suja, mas acende a chama.
o preto
E toda enchente que transbordar a mente; enfrente.
BM
Lar é onde a gente se aconchega no pior sofá e sente um alívio de sentir a madeira encostando em cada um dos ossos das costas. Lar é onde a gente chega e notam sua presença, e quando a gente sai, notam a sua ausência. Lar é onde tem de tudo, mas ao mesmo tempo falta algo. Lar é aquela pontadinha de saudade do chuveiro na temperatura que a gente gosta. Lar é aquele calor sem aquecedor. Lar é onde a gente quer estar a todo o tempo, e quando não quer mais, percebe que faz falta. Lar é aquilo que fica de quem se foi. Lar é onde a gente ama, e leva o amor pra dentro, bota debaixo da coberta e assiste filme na tv da sala até pegar no sono. Lar é onde o amor é recíproco.
BM
Poesia é um
a
b
i
s
m
o
de letra
BM
Caí derrotada na cama. Não como alguém que sente a dor em uma forma física. Era como se tudo que eu anteriormente acreditava, naquele momento não fizesse mais sentido. As lágrimas formavam uma laguna nos lençóis, nas cobertas e nos travesseiros, fazendo desenhos chulos, mas de uma beleza inigualável. Eu era mais uma chorando naquela noite, com todos os sonhos estilhaçados como um vidro após um baque estupidamente grosseiro. Era como se tudo estivesse sido explodido e voado pelo ar. Simplesmente, era meu fim. O fim de uma vida mal no começo, que ainda tinha muito ar pra sugar.
Era o que eu achava.
Sim, eu estava redondamente enganada. Não era fim algum. Era começo, ou re-começo. Mas ainda existia aquele sentimento interno de não ser autossuficiente. Um sentimento que nunca sairia de mim, e nisso eu estava muito mais do que certa.
“Talvez eu seja o meu maior obstáculo”, pensei. E mais tarde, esse “talvez” utilizado para expressar a minha incerteza sobre todas as coisas, se transformou em um “com certeza”. Entende? Sou eu quem complico minha própria vida. E por mais que eu pensasse nisso, eu não conseguia parar de me ferrar por livre arbítrio, como se aquilo me trouxesse prazer.
Meu sentimento de derrota foi se esvaindo ao longo do tempo, hoje é como se nunca tivesse existido de fato. E isso foi o suficiente para que eu entendesse, que ninguém no Mundo nunca é insubstituível.
Pra ficar livre de mim mesma. BM
Sou a constante e não adquirida forma de ser, parecer e pensar, continuo em mudança, algo solene, reconfortante, mas também encorajador. Chovia no dia em que nasci, por isso meus exageros e minha tempestades sem fim. Gosto do que sou, mas gosto mais ainda do que não sou. Meu futuro me aguarda, ansioso por um alguém que já tenha se formado em si mesmo, e saiba seus limites. Mas gosto de ser isso tudo. Gosto de ser meu nada. Gosto de ser esse mundaréu de confusão e aberração, e ao mesmo tempo, ser um nada lotado de branquidão.
Sou eu, mas e eu, sou o que mesmo?